Tango: a dança mais difícil que existe?

Juliana Maggioli

Nos últimos 15 anos, escutei algumas dezenas de vezes duas certezas: “Quero dançar Por una Cabeza no meu casamento” e “Tango é a dança mais difícil, por isso decidi deixar para depois que aprender as outras”. A primeira é uma constante deixada pelo romantismo da cena de Perfume de Mulher, que pela estratégia hollywoodiana alcançou e convenceu o mundo inteiro. A outra, em boa medida pela estratégia das escolas de dança, que incentivam o quanto inalcançável essa dança Tango está para todos nós.

Qual o sentido de alguns dançarinos argentinos de 60 anos ou mais, e ao longo do texto você vai entender porque estes, arrancam suspiros de muitos de nós jovens praticantes? É investigando esse fato que esse texto pretende encontrar os argumentos que invalidam a tese de que Tango é a dança mais difícil de todas; não por críticas a quem difunde essa idéia, mas por nos aproximarmos de quem são os “velhos milongueros”, derrubando qualquer expectativa de que para bailar bem temos que ser virtuosos e magros acrobatas.

Voltando no tempo, sabemos que o Tango tem uma origem marginal, em um contexto bem específico da história moderna. Na zona portuária de Buenos Aires (e também Montevidéu) uma população imigrante vinda de várias partes da Europa (sim, o espanhol porteño – de Buenos Aires – tem um sotaque delicioso em boa parte por culpa dos italianos) se encontra com uma tradição vinda do campo. Nessa cidade temos um bom exemplo do fenômeno de caminho à urbanização (e se preferir de modernidade) de um país ainda muito ligado à agro-exportação, como era o Brasil. Aliás, já repararam a semelhança entre Buenos Aires e a São Paulo de antes (que infelizmente só encontramos visitando o centro antigo)? A semelhança dos primeiros registros da música argentina e brasileira? Assuntos para outro momento.

Do campo temos a conexão com os costumes folclóricos, as rodas de cantiga, os ritmos africanos mantidos por ex-escravos, o amor ao mate, e talvez uma já ligação sentimental com a terra-nação. “Sin pasto, ho hay Tango” foi o que escutei outro dia de um estudioso apaixonado pelo tema. Na cidade, temos a música local que inevitavelmente espanhóis, alemães, poloneses e, claro, italianos traziam abarrotada nas bagagens ao lado de muita nostalgia do antigo lar; uma população em sua maioria masculina, sem família, pobre, que se estabelece nos conventillos (cortiços) e que acabam encontrando diversão onde podem: na rua e em prostíbulos. Para apimentar o caldo, a Habanera, ritmo que, também de origem africana mas vindo por Cuba, trazia uma marcação que de tão atraente atravessou presente todo curso da história tanguera. 

Um salto de mais de 30 anos nos leva direto ao momento que o Tango, ‘inventado’ nesse contexto particular e muito fértil, passa de prática de dança e música entre desfavorecidos, para a maioria dos salões da capital argentina. Aos poucos os novos habitantes porteños ascendiam socialmente e na geração seguinte já podiam desfrutar da riqueza que eles mesmos haviam ajudado a criar. A Década de Ouro do Tango, como ficaram conhecidos os anos ’40, não falhamos ao estender de 1935 a 1955. Era uma festa! A cidade toda era uma festa. Mais um momento que o encontro de muitos fatores raros permitiu a reprodução aos milhares de uma das músicas – entre populares e eruditas – mais impressionantes que conheço. E, igualmente, uma das danças também. 

A popularização do rádio, a indústria fonográfica amadurecida, meios de capturar e registrar o som muito melhores que poucos anos antes, o pós-2ª Guerra que trouxe abundância econômica pra muitos dos países latinos, um governo nacionalista que vê com bons olhos uma expressão artística autêntica própria, o fenômeno da urbanização em seu ápice. Imaginem que Buenos Aires nesse momento era comparada à Nova Iorque, capital dos espetáculos em uma Broadway de teatros, luzes, luxo, cinema. A Avenida Corrientes até hoje é a prova disso, corredor de grandes teatros em Buenos Aires. Cabarets do momento eram decorados com a estética de transatlânticos ao estilo art-decor, como El Marabú, no microcentro porteño.   

E mais um dado importante: o Tango tinha aprovação de uma personagem importante. Quem não considerou a Belle Époque francesa o que havia de mais sofisticado/moderno em termos culturais e de estilo de vida no mundo nos anos ’20 e ’30, provavelmente não fazia parte da metade ocidental do globo. Foi justamente Paris que aprovou o Tango através da figura de Carlos Gardel. O homem carregado de estilo dos pampas, que pela primeira vez canta ao ritmo de um gênero que vinha até então com demonstrações só instrumentais, quando muito sob um repente tipo o nosso nordestino, de payadores, improvisadores de versos, ao som de guitarra, flauta e violino. Gardel trouxe a letra de tango, premeditada, intencional e carregada de emoção – e por que não atuação – que completou uma brecha que existia até esse ano de 1917, quando lança Mi Noche Triste. Aprovação total. A letra fazia sentido, a interpretação fazia sentido, o modelo comercial era inédito e abençoado por uma beleza física que o fez protagonista de cinema até o trágico desastre que o levou 18 anos depois. Gardel era um galã que virou ícone de uma nação. 

Gardel se foi, mas a canção ficou. Talvez o maior legado que tenha deixado ao Tango e aos argentinos não seja uma letra ou atuação, mas o fato mesmo de inserir o canto ao Tango. A identificação cada vez maior por esse novo ‘gênero’ por uma cidade que se enriquecia, não podia ter outra consequência pouco depois: as Milongas, como chamamos os bailes de Tango, explodiram. Todos os finais de semana, orquestras se dividiam entre salões espalhados pela cidade. O milonguero tinha que decidir se ia dançar ao som da rock’n’rock orquestra de Juan D’Arienzo, da mais romântica Carlos di Sarli ou, para aqueles que podiam bancar, a elitizada Osvaldo Fresedo. Ao vivo. Sem contar outros bailes, que usavam de gravações.

Ganharam muito dinheiro. As orquestras gravaram como nunca. Venderam como nunca. E tocaram mais que nunca. Tango era finalmente cultura popular: escutava-se nas rádios, pelas ruas, restaurantes, clubes; durante o dia ou à noite nos mais diversos ambientes, dos mais familiares aos mais under, como não podia deixar de ser. A Década de Ouro é um fenômeno único no mundo, uma cidade inteira dançando ao som de um mesmo ritmo, completamente genuíno, novo, criado nos arranjos originais pela criatividade de cada maestro (chefe de orquestra) e composições de grandes músicos e letristas, dialogando com um passado carregado de muitos elementos profundos, regados ao estímulo financeiro que sustentava formações orquestrais de dezenas de excelentes músicos tocando por anos a fio. A nação era unida através do Tango.

Agora podemos entrar no assunto de que pretende esse texto: o que é dançar Tango. Se você conhece poucos tangos – algum deve conhecer – provavelmente deve ser um dos mais repetidos fora da Argentina. Não me espantaria se tivesse uma pitadinha de preconceito, dependendo da versão que chegou até você. Fica então meu conselho para agora, ou depois que acabar a leitura, escutar a playlist que preparei especialmente para esta ocasião. Entender porque se dançava Tango passa por entender que música é essa. E acredite, Gardel deu um ponta pé inicial, mas o gol era muito, muito grande. Se existiram muitas orquestras, existiram muitos estilos de Tango. Se uma delas – e aconteceu com várias – tocou por mais de 30 anos, existiram também muitos estilos dentro de uma mesma orquestra, de acordo com a época. Tudo muito orgânico, refletindo o espírito do tempo. As possibilidades de interpretação, na música e na dança, logo, tendem ao infinito. 

Sendo assim, é muito difícil que não haja um ou alguns Tangos que não te possam seduzir. Que te faça aguentar ficar por muito tempo sentado, ou ao menos sem os pelinhos do braço arrepiados, comovido. E cuidado! Muitos destes Tangos, mas muitos mesmo, têm pouco de romantismo, muito de calle (rua), pouco de palavras de amor, muito de palavras de ação ou subversão, pouco choro de bandoneon, muito de um som frenético que não deixaria dançarino de jazz ou samba nenhum insatisfeito. 

Todo mundo dançava. Mas como aprendiam? O fenômeno escolinha-de-tango é recente, que podemos jogar, apertando muito, para fins dos anos 1980. E então? Com quem aprendiam na Década de Ouro? E a resposta é: não aprendiam, criavam. Não ensinavam, transmitiam. Assim como a música estava evoluindo ano após ano (corre lá para minha playlist ) o Tango como dança vai sendo inventando à força bruta. Os encontros, que aconteciam nos clubes, seus bailes milongueros, faziam rei quem o executasse bem. E principalmente quem o fizesse com originalidade. O prêmio: conseguir a atenção da menina desejada (vencendo a aprovação da mãe ao lado) e obviamente status entre aqueles que almejavam o mesmo objetivo. Minto se eu disser que o único motivo de dançar era o casório. O papel da mulher no Tango passa longe de ser pequeno, mas é também tema para outro encontro. As chicas talvez foram menos protagonistas nas criações, mas fundamentais ao dar as coordenadas para as execuções. Minha impressão é que a parte lúdica, e não sensual, sempre fez muito parte da vontade de praticar Tango, tanto que por muito tempo foi dançado entre homens (além de com as moças em trabalho).

Temos registros que comprovam isso. A prática entre dançarinos homens, ou se preferir entre condutores, considero uma das maneiras mais eficazes para se aprender até hoje! Dá uma olhada no vídeo que separeide 2 grandes maestros bailando juntos, em uma sociedade, lembre-se, considerada machista. Tente ver por esse prisma, do caráter lúdico, desafiador, competidor dessa prática e comece a encontrar mais sentido nisso tudo. Ou a dar outro sentido ao Tango. Criatividade, diversão, destreza, improviso. Quem marca melhor? Quem é mais original? Quem segue melhor?

Tango não poderia ser uma das danças mais difíceis sendo criada nas esquinas dos bairros de subúrbio. Era ali que se encontravam os muchachos para “tirar nuevos pasos” e criar a dança. Ali nos ’40 estavam inventando o tango dança, sem mesmo perseguirem isso. As meninas que tinham irmãos, primos, tios que conheciam ‘algunos pasitos’, podiam aprender em casa, por tabela. Se não, tomar coragem para o imprevisível na noite de sábado. Aliás, seria difícil fugir disso, porque certamente naquela noite ela estaria por aceitar o convite de alguém que aprendeu/desenvolveu sua dança em outro bairro. Ou seja, passos inéditos para ela, puro improviso.

Então aqui já temos alguns bons argumentos: a de que a dança foi ‘inventada’ na prática, por pessoas comuns como eu e você. Há registros que contam como o ‘giro’ foi inventando: Petróleo, um dançarino que trabalhava como pedreiro, teve a ideia ao ver uma corda pendurada em uma roldana no ano de 1939. ‘Por que não colocamos a mulher a rodar em torno de nós?’ Pessoas que jamais nesse momento pensavam em ganhar dinheiro com Tango, e sim em se divertir e cutucar os amigos rivais temporários. Meninas que não tinham outra senão tomar coragem e ‘dar um jeito’ de abraçar e seguir aquele rapaz a lhe fazer sequências nunca vistas por ela. 

Você já pode estar pensando: mas isso são os primórdios! Já se passou quase um século! E minha resposta é: e daí? Cem anos, para um idioma – maneira como gosto e não acho que me equivoco em considerar o Tango, uma linguagem – não é nada. Mais: quase tudo o que fazemos até hoje foi inventado ali, naquela época. Não havia escola. Não havia método para aprender ou ensinar, não havia livros para ajudar ou estimular a auto-estima. Não havia conhecimento técnico ou “biomecânico”, como gostam muitos de se apoiar hoje em dia. Havia sim muita vontade, muito fascínio e pouca aversão ao risco. Até hoje não existe diploma que te possa validar como um milonguero de verdad.

O Tango tem origem diferente do balé clássico. Não se intimide com dicas para bailar Tango que venham dessa categoria. O mesmo vale para a dança moderna, as artes marciais, a meditação, o yoga, as teorias energéticas ou tantas outras que atualmente nós profissionais de Tango recorremos para tentar explicar movimentos e sensações. Graças a uma corrente intelectual dos ’90, que racionalizou e sistematizou os elementos dessa dança tão espontânea, novas abordagens surgiram. Foi uma porta de entrada para muitos jovens começarem a dançar. Milhares de amadores ao redor do mundo que hoje têm o Tango como uma das coisas mais importantes de suas vidas, devem bastante a esse movimento recente. Era mais fácil de ser explicado em outros idiomas, de ser entendido, de se encontrar um elo em comum com a cultura alheia. Mas houve perdas. 

Minha sugestão: como condutor ou seguidor, mire para aquele lugar, de um criador, de um improvisador com o corpo a quem aceitar o risco não é uma opção. Se acaso ficar satisfeito com explicações holísticas dos dias de hoje que deixam sua ansiedade por lógica contente (como a minha), não se deixe seduzir demais. Deixe o erro fazer parte do seu crescimento – e da sua dança madura – porque essencialmente o Tango nasceu e se mantém em seu melhor, assim.

Tente encontrar no seu professor uma pessoa que faça uma ponte com essa maneira de ver o Tango na essência. Moira Godoy com Obama, Jennifer Lopez, Dança do Faustão, as casas de show porteñas, são excelentes exemplos de uma evolução na dança, em sua parte técnica e seu apelo estético. Mas estes não seriam nada sem o original Tango de Pista ou Tango Social, o mesmo tango improvisado de cem anos, que tivemos todos nós, profissionais ou não, a sorte de podermos ter acesso quando aqueles garotos que participaram da Grande Festa, puderam transmitir, antes de falecer, às novas gerações. De Portalea, Mantegaza, Finito, Petróleo, Petaca, Paiva, Gavito, Todaro, Naveira, Pocho, Nieves, Margarita, Nelly. Aos ‘descendentes’ Javier Rodriguez, Geraldine Rojas, los Macana, os irmãos Missé, Ariadna e Federico Naveira, Noelia Hurtado, Carlos Espinoza, Pablo Rodriguez. Estão aí alguns nomes para buscar pelo Youtube.

Este texto termina incompleto. Adoraria gastar mais linhas dando a minha opinião sobre o que é para mim ter o Tango original como base hoje em dia, e como o Tango “moderno” sério está dialogando diretamente com aquele. Enquanto outro texto não vem, deixo minha última aposta: nunca estivemos em um melhor momento para aprender Tango. Parta desse princípio, da dança popular de pessoas comuns, e perceba você mesmo como Tango passa longe de ter que ser obrigatoriamente a última dança que você vai aprender na vida. 

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Juliana Maggioli começou a dançar Tango aos 21 anos, depois de um amigo insistir por este ritmo que ela não tinha nenhum interesse. Formada em arquitetura, ama ver seus alunos se tornando grandes dançarinos ao mesmo tempo que expressando sua própria personalidade. Sua pesquisa atual é sobre a complexa relação entre a música e as interpretações pelos bailarinos. Viajou lecionando por quase todos os continentes, o que a ajuda a elaborar uma concepção da importância do Tango para a humanidade hoje em dia.