Tango & Forró : pontes de conexão entre Brasil e Argentina

Pode parecer estranho, num primeiro momento, conjecturar alguma relação entre o Tango e o Forró, sendo duas culturas aparentemente tão distintas, não é?   No entanto, essa impressão só acontece enquanto mantemos um contato distante das suas raízes e interrelações históricas.

Ainda sem posse das informações e reflexões teóricas da multidisciplinaridade desse tema, se formos observadores bem cuidadosos, curiosos e nos questionarmos como ambos são capazes de ultrapassar quaisquer barreiras culturais por onde chegam, encantando adeptos devotos em todos os cantos, inclusive em povos que por tradição o toque em público inexiste, invariavelmente chegaremos a perceber o quanto ambos se comunicam profundamente com emoções essenciais da existência humana, fazendo-as aflorar mesmo em condições totalmente adversas e inóspitas à sua manifestação. Este é um ponto que levaríamos horas filosofando, mas neste momento só pontuaremos esta breve reflexão ! 😉

No meio Tangueiro, é consenso geral a expressão “ Tango é um caminho sem volta”, porque depois de ser contagiado por ele, não há mais como sair. Bem, no Forró pode-se dizer o mesmo, pois quem faz uma imersão na cultura forrozeira de ‘raiz’, e sente o aconchego romântico do Xote ou a alegria brincante do Baião, Xaxado, Forró e do Arrasta-pé (todos subgêneros da cultura forrozeira), guarda memórias afetivas tão positivas que não há como se desvencilhar da saudade de revivê-las novamente. Percebam que em ambos, um dos seus ritmos também dá nome à festa, que no Tango é a Milonga ! Ambos, Forró e Tango, possuem no contexto das suas próprias manifestações, ritmos e danças que proporcionam aos seus praticantes emoções e sentimentos que vão da pura introspecção à euforia, diferindo em proporcionalidade da frequência desses sentimentos durante suas práticas, sendo o Tango mais reconhecido por sua introspecção e o Forró pela sua alegria. Complementares como “ Ying e Yang”. Em ambos, a característica que proporciona o grande vínculo entre praticantes é a intensidade e conexão do Abraço !

Se buscarmos a época histórica do início de ambos, constataremos que são contemporâneos. Ambos aconteceram pela hibridização de povos que se encontraram e conviveram em situações distintas de seus costumes originários e em condições de sobrevivência laboriosa, necessitando de uma “trégua” para o espírito recuperar as energias. Não soa familiar as sensações que acabo de descrever quando vivenciamos o Forró e Tango , ainda hoje ?? Não é exatamente por esses sentimentos de alívio da labuta do dia-a-dia, aflorando hora a alegria e aconchego, hora a introspecção e paixão, estando em abraços conectados com outros seres humanos, priorizando essencialmente a sinergia e intensidade dessa interação que seus praticantes se vinculam tão apaixonadamente ?

Bem, vocês podem perguntar.   ok, mas , como e por quê o questionamento sobre as interrelações entre

Tango e Forró começaram ?? Como tudo que é natural, as interrelações acontecem por tempo indefinido até que alguns observadores curiosos começam a analisar mais de perto e se perguntarem “por quê ?”. Citamos aqui algumas situações bem provocativas que despertaram a curiosidade em entender as ligações “viscerais” entre nativos praticantes dessas duas culturas. Primeira, em 2009, a presença de uma grande participação de dançarinos nordestinos na delegação brasileira em um congresso de Tango na Argentina (CITA). Em 2012, presenciar diversos momentos de afinidade dos tangueiros argentinos pelo Forró, principalmente dos dançarinos Milongueiros e até de professores de Tango música. Um desses momentos marcantes foi observar um professor argentino de tango, usando um Forró como fundo musical para ensinar seus alunos, também argentinos, a dançar Milonga numa das escolas mais renomadas de Tango em Buenos Aires. E ainda, professores em congressos apresentando-se fazendo trocas entre dança e música, sendo mais frequente quanto mais se intensificava os intercâmbios desses maestros argentinos com Brasil. Lembrando que muito antes esse intercâmbio já ocorria entre os profissionais da música do Brasil e Argentina, sendo uma evidência dessa relação o fato do maior letrista de Gardel ser um brasileiro, Alfredo Lepera.

Em busca de respostas, uma jornada de pesquisas e vivências foi iniciada entre o nordeste brasileiro (Ceará, Pernambuco e Paraíba), Buenos Aires e São Paulo, levantando literaturas, entrevistas com dançarinos, músicos, personagens reconhecidos como mestres desses saberes populares e estudiosos acadêmicos dessas duas culturas.

Um breve recorte de parte dessas informações estão compiladas numa publicação monográfica de fácil acesso pelo botão ao lado, assim como alguns outros trechos de informações e momentos de vivências dessas trocas encontram-se na página do face Tango&Forró-Forró&Tango. Esses encontros e diálogos estimularam a criação de um movimento cultural que revigorasse o intercâmbio entre esses países irmãos, Brasil e Argentina, colocando holofotes nas evidências de seus vínculos culturais ! Desde 2009, o Tango está nomeado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO e o Forró está nesse processo de oficialização, neste momento !

Vídeo Institucional do Movimento Tango&Forró-Forró&Tango

Eventos de Intercâmbio de Tango e Forró

Milonga Jogando Tango – 2014 a 2015: projeto precursor da criação do movimento de intercâmbio entre Tango e Forró:

Eventos de Apresentação Oficial do Movimento Tango&Forró-Forró&Tango

Abril/2017 (SP): Milonga Mucho Tango no espaço Tango B´Aires  convida o Forró

Abril/2017 (B.Aires): Aula Espetáculo com Thadeu Romano e convidados no El Benny:

Maio/2017 (SP): Forró do Trio Matilha de Joa no CCB convida o Tango

Fev/2019 (B.Aires): Intercâmbio entre Forró e Tango com Artistas da Música e da Dança (turnê)

Nota

Em 2015 (SET), iniciam-se os fóruns oficiais sobre o registro do Forró como patrimônio imaterial pelo IPHAN. Com a intensificação da demanda de apoio a este processo, as atividades públicas do movimento Tango&Forró tornaram-se esporádicas, mantendo-se somente o intercâmbio institucional entre seus fomentadores na construção de novos caminhos para a sustentabilidade dessas manifestações culturais.

Demais exemplos nas mídias virtuais

Dançarinos de Tango bailando Milonga com Forró

*Milonga Gaúcha tbm similar ao Baião e Milonga Tangueira

Dançarinos de Forró bailando com Tango Milonga

Bel

Isabel Santos, nascida em família de festeiros populares numa vila formada por migrantes e imigrantes na região norte da capital paulista, sua vocação ligada à cultura foi despertada muito cedo e nutrida através de vivências com grupos nativos de diversos lugares e reforçada através de inúmeros cursos livres, seminários, encontros ligados à danças sociais, filosofia e diversos outros temas multidisciplinares.  Após dedicar-se 26 anos à área da biomédicas, parte deles como pesquisadora e gestora, resolve disponibilizar essas aptidões em favor da cultura à partir de 2012.  Adquiriu formação na área da dança , através de pós-graduação em Teoria do Movimento com ênfase em Danças Sociais à Dois ( Danças de Salão), na área de gestão cultural em contextos tradicionais e curadoria, dedicando-se nos últimos anos em processos de salvaguarda e difusão de bens patrimoniais imateriais.”